Mais de R$ 1,36 trilhão não evitou despejo diário de um Maracanã de esgoto até o topo
POR DIEGO BARRETO
Fonte: O Dia

Praia de Tubiacanga, na Ilha, virou mar de lodo nas últimas duas décadas, tirando o sustento de pescadores | Foto: Felipe O'Neill / Agência O Dia
A meta era terminar a primeira etapa do programa em 1999, tratando 58%
do esgoto lançado. Uma década e meia depois, a Baía de Guanabara recebe
70% do esgoto doméstico in natura de 15 milhões de habitantes do seu
entorno. Três estações de tratamento (ETEs) ainda não foram concluídas:
Sarapuí, São Gonçalo e Pavuna.
Os efluentes domésticos não são a única fonte de poluição. Estudo
elaborado pelo engenheiro hidráulico e sanitarista Jorge Paes Rios
aponta que, além dos 25 metros cúbicos de esgoto, diariamente são
lançados nas águas da Baía 6,5 toneladas de óleo, oriundas de terminais
marítimos de petróleo, estaleiros e indústrias. A carga orgânica das
seis mil indústrias no entorno atinge aproximadamente 100 toneladas.
Cerca de 300 quilos de metais pesados também são descartados lá.
“Se o Maracanã fosse uma caixa d’água cheia até a tampa, seria essa a
quantidade de esgoto que vai todos os dias para dentro da Baía de
Guanabara”, descreve Jorge. “A Baía está pedindo socorro há muito tempo.
Só que tudo isso requer dinheiro e campanhas educativas. Se fizessem
tudo o que está no papel, a Baía estaria despoluída”, acredita ele, que
defende barreira de tratamento para impedir a chegada de poluentes à
Baía. Por enquanto, mais uma vez o velho Maranata, barco que acompanhou o
pescador Lindauro nos últimos 50 anos, não sairá para o mar. “O homem
conseguiu jogar tanto esgoto que matou a Baía”, sentenciou Lindauro.
Poluição para quatro programas
Presidente da ONG Instituto Baía de Guanabara, a engenheira química Dora
Negreiros explica que, mesmo que a 1ª fase do PDBG tivesse sido
totalmente executada, a Baía não estaria recuperada. “Participei do
grupo que elaborou o projeto. Na época todos os técnicos sabiam que
seriam necessários uns 4 programas daquela proporção para restabelecer a
Baía. Limpá-la não é como fazer a limpeza de uma piscina, simplesmente
jogando produtos químicos”, afirma Dora. A especialista diz que em 15
anos a maior fonte de poluição mudou. “Quando o PDBG foi lançado, o
maior problema eram os resíduos industriais. Hoje isso melhorou muito.
Em compensação, o esgoto doméstico, sobretudo de ligações clandestinas, é
o grande poluidor”.
Falta de planejamento fez obras serem interrompidas
Presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), Wagner
Victer argumenta que até 2006 o PDBG sofreu com erros de gestão. “Eram
várias frentes de obra simultâneas, que andavam quando havia verba.
Quando faltava dinheiro, parava tudo”, conta Victer, que mudou o
gerenciamento do programa ao assumir o atual cargo.
“Focamos em cada obra, priorizando as que tratariam volume maior de
esgoto. Inauguramos a ETE de Alegria, que trata 2.500 litros de esgoto
por segundo: são menos 240 milhões de litros por dia. Entre seis e oito
meses, vamos inaugurar a ETE de Sarapuí que vai tratar mais 1.500 litros
por segundo. A de São Gonçalo deve ficar pronta dentro de um ano e
meio”. Descrente da recuperação da Baía, Lindauro sentencia sem titubear
o destino dos pescadores: “Ou muda de ramo ou morre de fome. Graças a
Deus, consegui tirar meus três filhos do mar. Passariam necessidade”.

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