segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Baía de Guanabara: 15 anos à espera de vida


Mais de R$ 1,36 trilhão não evitou despejo diário de um Maracanã de esgoto até o topo

POR DIEGO BARRETO
Fonte: O Dia 
Rio - ‘Nasci na beira da Baía e posso dizer que, em toda a minha vida, os últimos 15 anos foram os piores, a situação ficou horrível aqui. Não tem mais peixe, só esgoto’, afirma Lindauro Dutra da Rosa, 75 anos, da terceira geração de uma família de pescadores, encalhado no mar negro e espesso da Praia de Tubiacanga, Ilha do Governador, que exala forte mau cheiro.

Esses mesmos 15 anos foram marcados pelo Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), que, com orçamento inicial de 793 milhões de dólares, equivalentes hoje a mais de R$ 1,36 trilhão, não conseguiu evitar que a cada segundo 25 mil litros de esgoto sem tratamento cheguem à Baía.
Praia de Tubiacanga, na Ilha, virou mar de lodo nas últimas duas décadas, tirando o sustento de pescadores | Foto: Felipe O'Neill / Agência O Dia
Iniciado em 3 de fevereiro de 1995, o PDBG previa conjunto de ações para dotar de saneamento os municípios em volta da Baía. As obras incluíam construção e ampliação de oito estações de tratamento de esgoto, além da implantação de redes coletoras e de abastecimento. Capitaneado pelo governo estadual, o PDBG obteve financiamento do Japan Bank for International Cooperation e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A meta era terminar a primeira etapa do programa em 1999, tratando 58% do esgoto lançado. Uma década e meia depois, a Baía de Guanabara recebe 70% do esgoto doméstico in natura de 15 milhões de habitantes do seu entorno. Três estações de tratamento (ETEs) ainda não foram concluídas: Sarapuí, São Gonçalo e Pavuna.

Os efluentes domésticos não são a única fonte de poluição. Estudo elaborado pelo engenheiro hidráulico e sanitarista Jorge Paes Rios aponta que, além dos 25 metros cúbicos de esgoto, diariamente são lançados nas águas da Baía 6,5 toneladas de óleo, oriundas de terminais marítimos de petróleo, estaleiros e indústrias. A carga orgânica das seis mil indústrias no entorno atinge aproximadamente 100 toneladas. Cerca de 300 quilos de metais pesados também são descartados lá.
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“Se o Maracanã fosse uma caixa d’água cheia até a tampa, seria essa a quantidade de esgoto que vai todos os dias para dentro da Baía de Guanabara”, descreve Jorge. “A Baía está pedindo socorro há muito tempo. Só que tudo isso requer dinheiro e campanhas educativas. Se fizessem tudo o que está no papel, a Baía estaria despoluída”, acredita ele, que defende barreira de tratamento para impedir a chegada de poluentes à Baía. Por enquanto, mais uma vez o velho Maranata, barco que acompanhou o pescador Lindauro nos últimos 50 anos, não sairá para o mar. “O homem conseguiu jogar tanto esgoto que matou a Baía”, sentenciou Lindauro.

Poluição para quatro programas

Presidente da ONG Instituto Baía de Guanabara, a engenheira química Dora Negreiros explica que, mesmo que a 1ª fase do PDBG tivesse sido totalmente executada, a Baía não estaria recuperada. “Participei do grupo que elaborou o projeto. Na época todos os técnicos sabiam que seriam necessários uns 4 programas daquela proporção para restabelecer a Baía. Limpá-la não é como fazer a limpeza de uma piscina, simplesmente jogando produtos químicos”, afirma Dora. A especialista diz que em 15 anos a maior fonte de poluição mudou. “Quando o PDBG foi lançado, o maior problema eram os resíduos industriais. Hoje isso melhorou muito. Em compensação, o esgoto doméstico, sobretudo de ligações clandestinas, é o grande poluidor”.

Falta de planejamento fez obras serem interrompidas

Presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), Wagner Victer argumenta que até 2006 o PDBG sofreu com erros de gestão. “Eram várias frentes de obra simultâneas, que andavam quando havia verba. Quando faltava dinheiro, parava tudo”, conta Victer, que mudou o gerenciamento do programa ao assumir o atual cargo.

“Focamos em cada obra, priorizando as que tratariam volume maior de esgoto. Inauguramos a ETE de Alegria, que trata 2.500 litros de esgoto por segundo: são menos 240 milhões de litros por dia. Entre seis e oito meses, vamos inaugurar a ETE de Sarapuí que vai tratar mais 1.500 litros por segundo. A de São Gonçalo deve ficar pronta dentro de um ano e meio”. Descrente da recuperação da Baía, Lindauro sentencia sem titubear o destino dos pescadores: “Ou muda de ramo ou morre de fome. Graças a Deus, consegui tirar meus três filhos do mar. Passariam necessidade”.

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