RIO - Já se pensa nos próximos 10 anos (2011-2020) da Baixada de Jacarepaguá. Existe preocupação com os riscos de desastres ambientais tendo em vista os inúmeros exemplos e acontecimentos dos últimos anos, como os escorregamentos de encostas de Angra em janeiro e as enchentes e as ressacas de abril. Todos estes desastres transcorrem e são noticiados como se a população vitimada pudesse absorver de uma forma mansa e passiva. Sem a cobrança de responsabilidades, os prejuízos são pulverizados na própria sociedade, que tem consciência do problema, mas desconhece a razão e não vê a solução.
Sabe-se que a razão mais óbvia das causas dos desastres ambientais advém das mudanças climáticas que alteram rapidamente o seu padrão de ataque, com chuvas mais volumosas, ressacas mais agressivas, ventos mais fortes e calor mais intenso. Contudo, a razão menos evidente das causas dos desastres ambientais tem origem na ânsia por um desenvolvimento fácil e sem compromisso com o futuro.
A sociedade tem memória curta, e os governantes só têm visão para um mandato de quatro anos. Por outro lado, a natureza e principalmente as cidades reagem com intervalos superiores a nossa memória e mandatos políticos. Assim, todas as reações adversas com certeza têm origem em decisões erradas de 10 a 30 anos atrás.
Ao desenvolvermos um novo código florestal pensando mais nos interesses de determinados segmentos da sociedade e desprezando as leis que regem o equilíbrio natural, estamos contribuindo para os desastres ambientais dos nossos netos. Quando desenvolvemos um Plano Diretor para flexibilizar a ocupação das encostas, estamos ludibriando os futuros ocupantes dos morros. Se permitirmos a edificação em áreas muito próximas à linha d'água sem respeitar a Faixa Marginal de Proteção de rios e principalmente dos oceanos, vamos ter o que lamentar.
Permitir a ocupação das vargens sem promover a garantia de estar livre de inundações é, no mínimo, falta de probidade administrativa. Enquanto se discute outro Plano Diretor para ocupação das Vargens (Grande e Pequena) ninguém se preocupa com a dragagem do Canal do Rio Morto ou Sernambetiba. Nem mesmo a manutenção da embocadura do referido canal, que se encontra assoreado e obstruído, está prevista. A construção de um guia corrente é urgente para manter permanentemente aberto o escoamento das águas interiores que inundam as vargens quando da época das chuvas. A imediata ação de desassoreamento da rede de canais artificiais construídos na década de 70 para drenar as águas das Vargens (Pequena e Grande) deve ser conduzida. Se existe vontade política de fazer “bondades” para flexibilizar a ocupação das Vargens, é preciso ter responsabilidade para saber como pagar a conta das intervenções com objetivo de criar a segurança ambiental necessária.
Estima-se que até 2020 a população da Baixada de Jacarepaguá irá pular dos atuais 700 mil habitantes para a casa de 1 milhão. Com isso, é inexorável a pressão urbana por serviços para manter a nossa qualidade de vida. Deixar a conta nas mãos da natureza não vai dar certo. O poder público deve se preparar para inovar a gestão urbana, criando-se novas estratégias e equipamentos urbanos que considerem também as características ambientais locais. Não é preciso dizer que, se continuarem com a mesmice da gestão pública do passado, a tendência será o fracasso e o sofrimento da população.
Quando falo do poder público não me refiro apenas ao Executivo, mas principalmente ao Legislativo e ao Judiciário. Tendo-se também em mente que a vontade política começa com a opinião pública. Cabe às lideranças comunitárias estimular a reflexão por parte da sociedade para uma maior participação, evitando a omissão e as reclamações, além de pensar mais no coletivo e menos no individual.
David Zee é coordenador do mestrado em meio ambiente da Universidade Veiga de Almeida.


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